Para refletir: Pais e Filhos

A criação e a educação dos filhos nos dias atuais, sob um olhar superficial, parece ter mudado muito. “Nossas crianças não são as mesmas”, é o que mais ouvimos dizer. É claro, nem poderiam. Os pais também não são os mesmos. A sociedade não é a mesma. Existe um excesso de estímulos sem precedentes que o bebê recebe desde que está na barriga da mãe. Conversam com ele, colocam música para ele escutar, mamãe faz ioga, fisioterapia, psicoterapia…. Tudo muito bom!!!

Por outro lado, os casais de hoje optam por ter poucos filhos: um, dois, três no máximo. Muitas vezes concebidos depois de muitas tentativas por dificuldades orgânicas de mães com mais idade ou dificuldades psicológicas por estruturas muito consolidadas. Estes filhos ficaram muito preciosos. São os reizinhos que chegam em um castelo amplamente preparado e reinam absolutos nos dois primeiros anos. Diferente das famílias de nossos pais que a cada dois anos, nos traziam um irmão e este se incluía na dança familiar, conforme a música que estava tocando.

Porém, alguns dados do desenvolvimento infantil não podem perder sua importância e significado. Mesmo que a criança ao nascer, e nos três primeiros meses, necessite de cuidados intensivos e responsividade ao choro imediata e adequada, também é necessário que encontre uma “mãe suficientemente boa” que a conduza em direção à autonomia e a ajude gradativamente suportar as frustrações.

Na fase de desenvolvimento, que acontece por volta dos dois anos, a criança precisa abrir mão de seu estado narcisista de grandiosidade para perceber a presença do outro (primeiramente mãe e pai) que além de ser quem lhes proporciona as satisfações de suas necessidades, também têm necessidades próprias. Estas figuras, por sua vez, precisam ser fortes e consistentes para oferecer ao filho o suporte que ele precisa para continuar evoluindo. Com figuras adequadas a criança inicia seu processo de identificação onde, ao mesmo tempo em que adquire um senso de ser importante e único, projeta-se para um mundo adulto e separado dos pais, na busca daquilo que aos poucos determina como seus próprios ideais.

Quando isso não acontece, a estrutura psicológica não evolui e o resultado é uma pessoa fixada em suas necessidades, que não aceita “não”, que necessita receber constantemente gratificações externas, mesmo que para isso tenha que usar os outros. A sexualidade fica presa em um período pré-genital onde a busca do prazer não está dirigida ao outro como um parceiro complementar. O egocentrismo predomina e o respeito ao outro diminui, inclusive ao corpo do outro, ao que é ou não permitido fazer.

Apesar da simplicidade e superficialidade que cabe aqui, nestas observações, não podemos negar que estamos vivendo um período de transição. Se uma educação repressora com figuras paternas nítidas e lugar determinado para as crianças trouxe algumas repercussões negativas, quais as repercussões que poderão vir deste modelo que hoje se apresenta?

 * Texto assinado pela Psicóloga Clínica Daniela Graef, no jornal Folha do Mate, edição de 29 de junho de 2010

1 comentário em “Para refletir: Pais e Filhos”

  1. Quando li este texto na Folha do Mate, de tão bom que achei, pensei em vê-lo reproduzido em outras mídias.
    Parabéns a Daniela, autora, e a ti, Elton, pela sensibilidade da publicação neste importante espaço.

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